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domingo, 30 de julho de 2017

A normalidade


Bipolar
bordeline
alucinações
transgressões
rótulos
etiquetas
tentativas vãs de nomear
o inominável
Apeiron?
o que nem sempre pode ser dito
escrito
entendido
quiçá compreendido
Talvez com o grito
sempre contido
ora num olhar esbugalhado
Talvez
Mas o que doutores
não escutam
não prescrevem
não diagnosticam
não faz ser lúcido
é este sentir
que apenas nós
entrelaçados
e rotulados
na realidade
de tão indignado
procura outro significado
nada é óbvio
nem um tijolo
na sombra
ou luz
por mais concreto
escapa à abstrações
louco?
nem um pouco
é que a normalidade
na realidade
não nos seduz...

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Mosaico do que é...

Este caminhar...
Este caminho em que a cada passo deixa um rastro
um sorriso que passa
um flerte
uma paixão de anos com histórias tantas
e num piscar de olhos passou numa passada
0 vento bate
os cabelos esvoaçam
a saia roça a perna
o sopro no rosto
uma lágrima que rola
e tantas que rolaram
e tantas sufocadas
também passaram
tantos rostos amigos
e tantas feridas
tantas dores
e vamos caminhando
e um rastro de história
e pedaços de nós vão ficando
como que quem passa é o caminho
e não nós
somos esta ausência de tudo o que passa
e se chegamos vazios
vamos nos preenchendo de tudo o que passa
somos um mosaico do que não fica
somos isso que assiste
que participou por uma fração tão ínfima de um tempo que não se deixa medir
que pode se dizer que hoje
amanhã
que já é hoje também
assistiu
assiste a vida que é
que é um mosaico do que foi
do que passou
do que passa
do que é!

Tesão









Dias gelados

álcool

vapores

brisas quentes

poetas e poesias

conhaques

vinhos

Drummonds

Vinícius

Virgínias e Clarices

Pessoas...

In/corporando poetas

brindando poesias!





domingo, 2 de julho de 2017

Lembrança




E quando não houver mais chão

quando não houver mais chão

quando tudo for somente um lago

quando o amigo não estiver ao lado

quando se sentir só na multidão

quando tudo parecer confuso

confusão

esperneie

Lembre

grite:

Há mares!

Oração

Oração
Atirem pedras! Atirem! Não às Madalenas de suas crenças, mas àquela, cadela que renega suas crenças e, despida de qualquer crença, se professa ateia... Diante da multidão com pedras na mão, num ato de covardia, rebeldia talvez, sucumbe e vem, ajoelhada com as mãos sujas do sangue que sendo seu corria dantes noutro corpo que acarinhava, agradecer a deus! Agradeço a deus sobretudo a companhia nos momentos difíceis, agradeço por ter ouvido as preces de todos os amigos que distantes da pedra que eu levantava, não me deram a mão, mas como fruto de uma amizade sincera, oraram... Agradeço a deus por ter me dado o conforto, esta sensação de não estar só, quando, na ausência dos amigos que oravam pedindo o meu socorro, compareceu e se fez presente... Presente de amigos que me amam e não vieram, mas em oração pediram e doaram o melhor de si... Pediram que uma força sobrenatural estivesse comigo e fosse as mãos e olhares que não me deram... Quem tem deus não precisa de amigos e talvez por isso eles não vieram... Agradeço a força, a superação, agradeço a esperança e confiança interna de que tudo vai dar certo... Agradeço a deus, sobretudo por me fazer ver, entender, sentir... que se eu negar sua existência, será o mesmo que me despir de amigos que já não tinha, negar uma existência coletiva... Agradeço o me fazer só, ter de engolir o choro calado, e resistir; levantar a cabeça , cerrar os punhos, urrar até, e resolver tudo com minhas próprias forças... Agradeço a deus a companhia solidária encomendada por tantos amigos... Agradeço a deus! E aos amigos, sobretudo a certeza dos que não são! Agradeço enfim a com/ciência desta oração... Foto de Jan Saudek

sexta-feira, 14 de maio de 2010

VÉSPERA

Ouve-se aquela insuportável musica do gás... Abre-se o olho e, milímetro por

milímetro, vai se enxergando cada pedacinho do que a rodeia... Roupas espalhadas...

TV ainda ligada... Por alguns minutos fica-se ali... Imóvel... Os pensamentos todos

se misturando com o que se vê e ouve... Há um misto do que é “real” do que foi, do

que será e dos sonhos... Sonhos sonhados apenas há alguns momentos ainda

adormecidos... Sonhos adormecidos sonhados há muito... E sonhos vividos e vívidos

ainda, mas... Mas... Sonhos que também passaram... E ainda tantos outros que parecem

brotar... Latentes ainda... Talvez não sonho ainda... Talvez só uma esperança de

novos sonhos surgirem...Imóvel fisicamente, tenta-se organizar tudo... Fragmentos de

sonhos, televisão vomitando os mesmos excrementos, tentando incansavelmente fazer

com que não se pense no que se pensa ou poderia pensar... Mas, como diria o Raulzito

a respeito do rádio: é só desligar o botão...

Num primeiro movimento catatônico, senta-se à beira da cama... Maquinalmente passa-

se a mão aos cabelos... Gesto bem útil... Se alguém o assiste terá uma imagem mais

agradável após esse ajeitar e talvez perceba também a desolação que levou ao

gesto... Como é possível um gesto tão simples significar coisas tão opostas:

preocupação com a imagem e desolação? Tudo mexido... Tudo revirado... Tudo

confuso...

Levanta-se com passos incertos... E, segue-se o ritual matinal: coloca-se a água do

café no fogo, e enquanto espera-se que a água ferva, segue-se o ritual de higiene...

Olha-se no espelho próximo a pia... E, observa-se, todo dia, como se fosse uma

grande novidade o que se vê... Cada dia é um diante do espelho... Sempre um

estranho... Enxerga-se um novo sinal, um novo cravo, um outro inchaço nos olhos...

Mas, cada pequeno e novo detalhe dão ao todo um ar estranho... E como negar que esse

olhar... Mirar... Fitar o estranho no espelho não faz parte da higiene pessoal?

Talvez poucos notem... Mas, o espelho proporciona muito mais do que apenas a

verificação física... O espelho é sempre uma revelação!

Escuta-se a água ferver... E a cabeça acompanha o ritmo... Tudo misturado... E há

tantos componentes explosivos... Melhor apagar o fogo... Melhor tentar como em

alquimia misturar os ingredientes certos e transformar algo insignificante em algo

valioso... Açúcar, pó de café, proporção, água, um coador... Hummmmmmmmm que cheiro

bom o de café fresco! Às vezes, erramos na proporção, o cheiro é bom, mas o paladar

denuncia o erro... Pode-se ajeitar: um pouco de leite, mais açúcar... Quem sabe


adoçante, creme de leite... Manteiga... Chantili!

Segue-se o ritual, e cada um tem o seu. Se tudo deu certo nesse primeiro momento,

senta-se e degusta-se algo quentinho e saboroso... Pode-se estar sozinho ou

acompanhado... Nunca importa... Dificilmente a cabeça estará vazia a espera do

novo... Ela não para! É possível que se escute o falso roncar de alguém que já fora

um sonho sonhado, vivido e vívido... Um sonho acordado que agora apenas finge dormir

para adiar a visão do pesadelo que parece ter desfeito as malas onde antes parecia

um lugar mágico... O mundo dos sonhos reais... O café com leite conforta o corpo e

escorrega goela abaixo... Todo o aparelho digestivo parece em festa e é possível

realmente sentir o conforto que o corpo sente... Mas, a cabeça... A mente... A mente

não sabe o que mente e o que é real... No mundo dos sonhos é sempre tudo possível...

No mundo dos sonhos os pesadelos também sabem se fazer presentes... De grego... Mas,

presentes...

A cada amanhecer diante do espelho, escutando-se o borbulhar do que ferve, estamos

todos mesmo sem saber a esperar... A esperar que tudo se harmonize... Que a alquimia

dê certo... Mas, cada momento desses que se repetem religiosamente todos os dias de

nossas vidas... É apenas a véspera de seja lá o que for... Alegre ou triste,

satisfeito ou infeliz, acompanhado ou só... Todo dia diante do espelho... Diante de

nós, quem sabe... Estamos diante de nada! Vivemos apenas a véspera de algo... Esse

algo que nos surpreenderá a qualquer momento... Talvez... Só talvez, esse momento de

que falo pode não ser a véspera de algo... Mas, o grande momento... Se quiseres, num

dia desses, numa véspera qualquer... Alguém mire o vazio do espelho e faça desse

momento o fato...

Afinal quem é que decide o que é a véspera e o que é o fato?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

AMOR E SÊMEM

O SEU SANTO NOME

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro)
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
Ao espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
Que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie...

Carlos Drummond de Andrade

(...) por mais que o homem faça e se eleve acima de si mesmo, há
sempre dois instantes fatais no dia que o chamam de volta, malgrado
ele, à triste condição de animal; de onde se sabe que meu sistema
(talvez por julgar demais, segundo penso) não o afaste muito. E
estes dois instantes cruéis (perdoem as expressões que não são
nobres mas verdadeiras), estes dois instantes repelentes são
portanto aqueles em que ele precisa se encher e se esvaziar.

Donatien Alphonse François de Sade


AMOR E SÊMEM
(Oikekel)

Bem... Presenciamos belas tentativas, aqui mesmo, de se descrever o
amor... e então, ouvimos sobre carência, amor-próprio, vários tipos
de amor/Eros e veio a baila até a expressão fazer amor...
Agora, então, lançarei o desafio... Dispam-se!!! Sejam corajosos!!!
Sozinhos em algum cômodo dispam-se... mas dispam-se de corpo e
alma... retirem as máscaras, por mais útil que elas sejam... temem
um deus que os observam??? Será que nem mesmo sozinhos se sentem
realmente seguros para serem vocês mesmos???
Às vezes, como agora sinto-me bem perto da loucura... quero gargalhar
por horas... quero chorar de tanto rir... mesmo sem saber direito
sobre o que rio... se de mim... ou se dessa cultura que tanto me
ofende... e sabem o que é mais engraçado??? É saber que há tantas
almas como a minha... hahahahahahahahahahah loucura??? Loucura é um
dia acreditar que somos o que hipocritamente somos!
Mas tá... o amor!!! Claro que ele existe, não há dúvidas disso,
também eu o sinto... mas quando estou excitada... quando o tesão me
envolve o que realmente importa é expulsar de mim o espírito que
circula... que faz formigar meu corpo que lateja e que me faz
ofegar... às vezes, temos diante de nós o objeto de nosso amor
fisicamente nu... como diria o poeta... "languido"... e o que
fazemos com ele? Ou melhor, o que esse objeto mal-intencionado, não
esqueça que para ele – o objeto – você também é objeto, pois bem, o
que esse objeto espera de você? Como é??? Falem mais alto... ele
espera o quê??? Carinho? Ora, façam-me o favor...
Quando o sangue inflama as veias, os padrões sociais são inúteis...
os sentimentos se afogam nele... e só resta o instinto... e que
dilícia se lambuzar no suor animal... mas, depois... depois do
espírito expulso, o sangue esfria, e a dilatação se contrai e eis que
surge o racional clamando suporte técnico para explicar a
selvajaria... e então... hahahahah
Não sei se me entendem... Todo tipo de relação sexual é uma relação
sexual... seja com a prostituta ou com a esposa, com o garoto de
programa ou com o marido... com um(a) vagabundo(a) ou com o objeto
de nosso amor... E a química desse momento vicia mesmo e contamina
qualquer sentimento... O amor pode até sobreviver ao vicio, mas não
se mistura jamais...
Vou dizer agora uma coisa absolutamente honesta... Estou esgotada!!!
Já vivi o suficiente tentando conciliar essas coisas em mim...
basta!!! Sou só cicatrizes de tantas feridas causadas por este
conflito... Arregalo os olhos para a hipocrisia estampada no outro,
e às vezes, às vezes o outro me fita através do espelho que fito...
Sei o que falo e sinto... Quantas vezes em lágrimas sussurrava um
"mas eu amo você, você não me entende..." ao mesmo tempo em que
sentia entre as coxas meu sexo latejar... e sem poder falar, tudo o
que de fato queria era sentir o gosto do sêmen escorrendo entre meus
lábios...