Ouve-se aquela insuportável musica do gás... Abre-se o olho e, milímetro por
milímetro, vai se enxergando cada pedacinho do que a rodeia... Roupas espalhadas...
TV ainda ligada... Por alguns minutos fica-se ali... Imóvel... Os pensamentos todos
se misturando com o que se vê e ouve... Há um misto do que é “real” do que foi, do
que será e dos sonhos... Sonhos sonhados apenas há alguns momentos ainda
adormecidos... Sonhos adormecidos sonhados há muito... E sonhos vividos e vívidos
ainda, mas... Mas... Sonhos que também passaram... E ainda tantos outros que parecem
brotar... Latentes ainda... Talvez não sonho ainda... Talvez só uma esperança de
novos sonhos surgirem...Imóvel fisicamente, tenta-se organizar tudo... Fragmentos de
sonhos, televisão vomitando os mesmos excrementos, tentando incansavelmente fazer
com que não se pense no que se pensa ou poderia pensar... Mas, como diria o Raulzito
a respeito do rádio: é só desligar o botão...
Num primeiro movimento catatônico, senta-se à beira da cama... Maquinalmente passa-
se a mão aos cabelos... Gesto bem útil... Se alguém o assiste terá uma imagem mais
agradável após esse ajeitar e talvez perceba também a desolação que levou ao
gesto... Como é possível um gesto tão simples significar coisas tão opostas:
preocupação com a imagem e desolação? Tudo mexido... Tudo revirado... Tudo
confuso...
Levanta-se com passos incertos... E, segue-se o ritual matinal: coloca-se a água do
café no fogo, e enquanto espera-se que a água ferva, segue-se o ritual de higiene...
Olha-se no espelho próximo a pia... E, observa-se, todo dia, como se fosse uma
grande novidade o que se vê... Cada dia é um diante do espelho... Sempre um
estranho... Enxerga-se um novo sinal, um novo cravo, um outro inchaço nos olhos...
Mas, cada pequeno e novo detalhe dão ao todo um ar estranho... E como negar que esse
olhar... Mirar... Fitar o estranho no espelho não faz parte da higiene pessoal?
Talvez poucos notem... Mas, o espelho proporciona muito mais do que apenas a
verificação física... O espelho é sempre uma revelação!
Escuta-se a água ferver... E a cabeça acompanha o ritmo... Tudo misturado... E há
tantos componentes explosivos... Melhor apagar o fogo... Melhor tentar como em
alquimia misturar os ingredientes certos e transformar algo insignificante em algo
valioso... Açúcar, pó de café, proporção, água, um coador... Hummmmmmmmm que cheiro
bom o de café fresco! Às vezes, erramos na proporção, o cheiro é bom, mas o paladar
denuncia o erro... Pode-se ajeitar: um pouco de leite, mais açúcar... Quem sabe
adoçante, creme de leite... Manteiga... Chantili!
Segue-se o ritual, e cada um tem o seu. Se tudo deu certo nesse primeiro momento,
senta-se e degusta-se algo quentinho e saboroso... Pode-se estar sozinho ou
acompanhado... Nunca importa... Dificilmente a cabeça estará vazia a espera do
novo... Ela não para! É possível que se escute o falso roncar de alguém que já fora
um sonho sonhado, vivido e vívido... Um sonho acordado que agora apenas finge dormir
para adiar a visão do pesadelo que parece ter desfeito as malas onde antes parecia
um lugar mágico... O mundo dos sonhos reais... O café com leite conforta o corpo e
escorrega goela abaixo... Todo o aparelho digestivo parece em festa e é possível
realmente sentir o conforto que o corpo sente... Mas, a cabeça... A mente... A mente
não sabe o que mente e o que é real... No mundo dos sonhos é sempre tudo possível...
No mundo dos sonhos os pesadelos também sabem se fazer presentes... De grego... Mas,
presentes...
A cada amanhecer diante do espelho, escutando-se o borbulhar do que ferve, estamos
todos mesmo sem saber a esperar... A esperar que tudo se harmonize... Que a alquimia
dê certo... Mas, cada momento desses que se repetem religiosamente todos os dias de
nossas vidas... É apenas a véspera de seja lá o que for... Alegre ou triste,
satisfeito ou infeliz, acompanhado ou só... Todo dia diante do espelho... Diante de
nós, quem sabe... Estamos diante de nada! Vivemos apenas a véspera de algo... Esse
algo que nos surpreenderá a qualquer momento... Talvez... Só talvez, esse momento de
que falo pode não ser a véspera de algo... Mas, o grande momento... Se quiseres, num
dia desses, numa véspera qualquer... Alguém mire o vazio do espelho e faça desse
momento o fato...
Afinal quem é que decide o que é a véspera e o que é o fato?
AMOR FELIZ
Há 7 anos

